O Lado Negro do Home Office: quando o burnout nos alcança em casa
- José Caetano

- 25 de nov. de 2025
- 6 min de leitura
Você se lembra quando sonhava em trabalhar de casa? Quando isso parecia ser a panaceia para todos os seus estresses advindos do ambiente de trabalho? Só que há cinco anos, o mundo sofreu uma reviravolta e todos foram mandados para suas casas, e muitos que ainda não tinham experimentado o lado negro do trabalho remoto se viram sobrecarregados, desestimulados e emocionalmente abalados, justamente quando viviam o sonho de trabalhar em casa.

Como um Jedi desse tipo de trabalho, tendo estado os últimos 22 ou 23 anos de minha vida profissional passando mais de 80% do tempo em home office, acredito que eu tenha aquilo que os mais novos chamam de “lugar de fala”, o que eu só chamo de “experiência no assunto”, para discorrer sobre os benefícios e os malefícios dessa modalidade de trabalho, ajudando você, meu jovem padawan, que decidiu seguir esse rumo perigoso de dividir seu refúgio de descanso com seu ganha pão.
O trabalho remoto é o maior plot twist que existe, pois aquilo que parece ser a verdadeira liberdade dos grilhões da vida corporativa pode se tornar uma modalidade de prisão domiciliar, mas com Internet. Há semanas em que eu realmente não coloco as caras sequer na rua de minha casa e todo contato com o mundo exterior se dá através de telas.
Mas, ao longo do tempo eu consegui desenvolver alguns hábitos muito saudáveis que me ajudaram muito a não me tornar o próximo Darth nessa galáxia do home office, e vou deixar aqui algumas dicas úteis.
Divida os ambientes
Eu já tive escritório na sala de estar, já trabalhei de um canto no quarto, já espalhei minhas coisas pela mesa de jantar, porém, por mais que possa parecer confortável trabalhar do sofá da sala de vez em quando, isso não pode se tornar a rotina, porque sua mente irá entender que aquele sofá (aquela mesa de jantar, seu quarto…) é um ambiente de trabalho e, mesmo que você feche o laptop, os ares não mudam e não conseguimos relaxar.
Confesso que sempre achei que isso era uma bobagem e dei de ombros aos conselhos de alguns psicólogos até que a coisa estourou e eu me vi em meio a uma crise de ansiedade, mesmo tendo o melhor ambiente do mundo para trabalhar: minha casa.
Um sábio já disse uma vez que onde se ganha o pão, não se come a carne. Eu sei que esse ditado se refere mais aos problemas que surgem das relações amorosas no ambiente de trabalho, mas levar o trabalho para onde você vive seus amores também pode prejudicar sua casa. Portanto, não é bom ganhar o pão onde se come a carne, também.
Se sua casa não proporciona uma boa divisão de espaços de maneira que você tenha seu canto de trabalho, o co-working pode ser uma alternativa viável, ainda que isso aumente seus custos de trabalho. Eu mesmo saio duas vezes por semana para trabalhar em um co-working, para dar aquela mudança de ares e até mesmo para ampliar minha network, por que não?
No co-working que frequento até criamos uma banda, os “Inimigos do Home Office”, numa maneira divertida de brincar com o fato de que estamos pagando para trabalhar fora de casa. Nosso show acontece na happy hour do escritório, uma vez por mês, e somos exclusivos. Não queira nos contratar.
Divida bem o tempo
Da mesma maneira que os espaços precisam ser divididos para que nossa mente compreenda bem o que é trabalho e o que é descanso, temos que disciplinar nosso tempo. Não é porque estamos trabalhando de casa que todas nossas 24h estão disponíveis para o patrão ou para os clientes.
Depois que passei a estabelecer horários concretos de trabalho, consegui produzir muito mais e ainda não fico tão ansioso com as mensagens fora de hora dos clientes. Com o advento do WhatsApp parece que temos que estar disponíveis a todo momento, mas isso não é verdade.
Aprendi a programar o “foco” do meu iPhone, que reflete automaticamente em meu iPad e MacBook, e quando não estou trabalhando só recebo ligações e mensagens da minha família e amigos.
A não ser que você tenha um trabalho que atenda emergências de vida ou morte, geralmente as urgências podem ser resolvidas no próximo dia útil.
Cuidado com a solidão
Ficar pulando de meeting a meeting não é a mesma coisa que trabalhar junto a uma equipe de trabalho em um escritório. As conexões digitais não oferecem ao nosso sistema nervoso os mesmos impulso que o contato olho no olho. Não temos a mesma reciprocação do contato humano pessoal quando falamos através das telas.
Nossos órgãos sensoriais são ferramentas avançadíssimas quando falamos de relações humanas, e quando temos contato pessoal nós conseguimos distinguir uma reação verdadeira de uma resposta meramente formal.
Depois de décadas trabalhando a maior parte dos dias da minha semana no meu home office, eu posso tranquilamente dizer que a solidão sempre está ali ao lado. Mas eu não posso reclamar, não é mesmo!? Afinal, eu tenho a sorte de trabalhar em casa! #ironia
A ansiedade pode ser tornar presente
Trabalhar em casa geralmente faz com que fiquemos ligados 24/7 no modo trabalho, e isso faz com que nosso sistema nervoso mais antigo, aquele que, diante de um desafio nos faz lutar ou fugir, fique o tempo todo ativado e, num determinado momento, ele vai dar um tilt por sobrecarga.
É nesse momento que muitos dos que trabalham em casa começam a perceber que a ansiedade, um mecanismo normal no ser humano, acaba por se tornar patológica.
Ou, se não é a ansiedade, o que geralmente acontece é um tipo de achatamento das emoções. Você fica tanto tempo ligado no bater ou correr, que as emoções começam a se achatar, e você não fica mais aborrecido com certas coisas, mas também não se sente inspirado… meio que você só está lá.
Isso não é culpa de sua carreira, de seu trabalho. Isso não significa que você esteja estagnado em sua vida, mas é seu sistema nervoso lutando para sobreviver a uma ameaça constante, que é o trabalho invadindo sua casa. Lembre-se que você não deixa mais os problemas do trabalho no escritório e volta para casa, ao contrário, eles ficam ali, no seu smartphone, na mesinha ao lado do sofá ou no seu móvel de cabeceira.
Quem consegue ser criativo desse jeito?
Minha vida profissional consiste em criar histórias o tempo todo, seja em texto, seja em áudio ou mesmo em vídeo e, muitíssimas vezes eu me peguei num verdadeiro bloqueio criativo em meu home office. A solução é montar na moto e sair para a estrada, parar em um café, conversar com as pessoas e abrir meus olhos para o horizonte.
Certa vez, um grande mestre da educação, um verdadeiro cientista do saber humano me disse que quanto mais longe saímos de casa, mais nossa mente se dilata e mais conhecimento conseguimos acumular. Concordo com ele não só pelo fato de ter sido seu aluno, mas por experiência própria, Em minha experiência, meus períodos mais criativos ocorrem quanto mais longe eu estiver de casa, mesmo que a viagem tenha sido por mais de 12h de avião. Parece que nossa mente se toca o quão longe está de casa.
Se eu fico uma semana toda em meu home office, certamente a próxima semana carregará um gasto de energia muito maior no processo criativo. A criatividade precisa de estímulo e advinhe o que não existe em seu home office?
Dicas de quem sofreu e achou um caminho
Crie um ambiente separado de trabalho - se possível, separe um cômodo da casa para seu trabalho remoto e deixe as coisas de trabalho lá. Finja pra si mesmo que ali é seu escritório e que ele fica a alguns quilômetros de sua casa. Se algum cliente ou seu chefe lhe perguntar algo fora do horário, responda que quando chegar no escritório, você resolve. Eu fiz duas coisas aqui, criei um escritório separado da casa e ainda alugo um espaço em um co-working dois dias na semana. Isso me dá aquela sensação de ir trabalhar e, no fim da tarde, sair do trabalho.
Saia do trabalho - a ideia aqui é ter um ritual que simule sair do trabalho. Desligue o computador, arrume os papéis em cima da mesa, guarde as canetas, apague a luz do escritório, ligue uma música fora dos fones de ouvido… você chegou em casa, mesmo que sua casa esteja a dois passos. Se você tem fé, faça uma breve ação de graças pelo dia de trabalho que acabou.
Converse com pessoas reais - matricule-se numa academia, vá até um bom café e pergunte para o barista como foi o dia dele, converse com o dono da banca de revistas do seu bairro (se isso ainda existir), enfim, converse com gente de verdade. Contato humano não vem por fibra ótica.
Proteja seus finais de semana como você protege suas senhas - todo mundo precisa parar de trabalhar, de verdade, por um ou dois dias. É necessário para que o trabalho continue fluindo. Nada de dar uma checada no email ou no WhatsApp. Fique tranquilo, na segunda-feira o seu trabalho estará ali lhe esperando novamente.
Mude o cenário de vez em quando - Você não imagina o que a mesa de canto na cafeteria ou aqueles espaços com mesas e tomadas que começaram a existir em alguns shopping centers são capazes de fazer por você.



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