Qual a menor distância de uma viagem
- José Caetano

- 20 de jan.
- 4 min de leitura
O que é uma viagem para você? No mundo das motos, damos vários nomes para os tipos de deslocamento que fazemos com nossas máquinas. No Brasil, em geral, um passeio de moto é chamado de “rolê” (no Rio de Janeiro é “rolé”), ride, pernada, viagem
e, para os mais aventureiros, pode até ser chamado de expedição, ainda que no mundo de hoje, expedições verdadeiras sejam bem raras, mas o que pode ser realmente considerado uma viagem de moto?
Um educado expectador de um do Portal Gasolina, ao comentar um vídeo de review que eu fiz logo que comprei minha Bonneville T120 Black, pediu desculpas e afirmou que a distância de 300km não pode ser considerada uma viagem.

Etimologia e Significado
Aquele comentário me deixou deveras intrigado, pois o trajeto de 300km a que me referi não foi somente um “rolê” bate e volta, uma ida e vinda na correria num mesmo dia. Ao contrário, eu preparei alforges, coloquei barraca na moto, levei saco de dormir, escova de dentes e um par de chinelos. Ainda que a distância não fosse tão grande, aquele passeio me tirou de casa, me permitiu conhecer lugares que eu não conhecia, me fez dormir numa barraca sob o céu enluarado. E o nosso amigo, que já deve ter ido até a Terra do Fogo e voltado, de certa forma, menosprezou minha viagenzinha.
Como eu queria salvar aquela pequena aventura, colocando-a no patamar das grandes viagens, ainda mais para mim, — perdoem-me por parecer arrogante — que já caminhei às margens do Mar da Galiléia, fotografei o derriere da Torre Eiffel, comi um hamburguer em Zurique e muitas pizzas em Roma e outros tantos lugares da Velha Bota por uma boa parte da minha vidinha, não me dei por satisfeito.
Viagem é uma palavra interessante, que deriva do latim viaticum, isto é, as provisões de uma jornada que, por sua vez, deriva de via, que pode tanto significar rua como também estrada. Além disso, o famoso dicionário Oxford esclarece que viagem é o “ato de partir de um lugar para o outro, relativamente distante, e o resultado disso”.
Relativamente Distante
Pronto, achei o ponto de divergência entre minha consideração daquilo que é uma viagem e aquilo que meu espectador, muito educado por sinal, pensava de uma viagem. O problema está no “relativamente distante”. Para um leitor desatento, a palavra “relativamente” quase não salta aos olhos, e a ênfase fica no “distante”.
E aqui temos que pedir ajuda àquele gênio do cabelo desgrenhado que escreveu suas Teorias da Relatividade, nas quais ele explica que os conceitos, que antes eram tidos como absolutos, isto é, o espaço e o tempo, na verdade, dependiam do estado de movimento de cada observador, são relativas ao referencial de quem mede.
Ou seja, aquilo que para mim é distante o suficiente para considerar uma viagem, pode não ser para o outro, e aqui eu nem entro no campo da filosofia e fico apenas na física de Einstein.
E o resultado da viagem
Porém, nosso querido dicionário coloca um elemento muito importante na definição de viagem que é o seu resultado. Uma viagem não é uma viagem se não trouxer um elemento transformador.
Filosoficamente, um resultado frequentemente implica mudança, pois representa a transição de um estado inicial para um novo, alterando o equilíbrio ou o status quo por meio de causas que produzem efeitos transformadores. Aristóteles, por exemplo, via o resultado como telos (fim ou realização), onde a mudança (kinêsis) leva a uma potencialidade se atualizando em algo diferente, como uma semente se tornando árvore, rompendo a estática.
É justamente aqui que eu salvei minha pequena viagem de 300km, colocando-a à altura de minhas grandes viagens de milhares de milhas por diversas incríveis cidades e localidades do mundo. Houve mudança, houve transformação do status quo ante, houve resultado. Eu voltei pra casa diferente.
A distância importa?
Portanto, a distância, em nossa viagem, é relativa e aquilo que importa é justamente o resultado. Conheço pessoas que atravessaram os andes de moto, tiraram fotos na Mão do Deserto, foram do Ushuaia ao Alaska, mas voltaram para casa sem uma verdadeira transformação. Talvez, apenas queriam fugir da verdadeira jornada agridoce da vida cotidiana, e a distância foi apenas fuga.
Por outro lado, tenho amigos que vivem fazendo trajetos de 300km a 1000km e voltam para casa completamente transformados, reavivados, cheios de experiências e encontros que não cabem na galeria de fotos do celular. Isso sim é viagem.
Quando estive em Roma, Assis, Pescara, Madri, Lisboa, Istambul, Cafarnaum e Belém da Judeia etc., não trouxe só fotos. Conheci pessoas, idiomas, sabores e aromas, e cada uma dessas experiências me fez refletir sobre a vida de uma forma diferente. Também, nessa pequena viagem de 300km, dormindo em uma barraca pequena, com desconfortos, conhecendo gente bacana e vivendo novas experiências acabou trazendo um resultado.

A mudança é o que transforma um trajeto em uma viagem
Então, meu caro amigo, eu não quero saber se você já rodou milhares de quilômetros em sua moto ou se você só aproveita os finais de semana nas cidades próximas de sua casa. Para que um trajeto se transforme em uma viagem o que vale é a mudança de perspectiva, o crescimento pessoal, pois a distância é relativa.
Pode até ser que eu tenha “viajado” muito nesse artigo de hoje só para dizer que o que importa mesmo não é a distância percorrida por fora, mas a distância percorrida em sua alma.
Dito isso, não se sinta envergonhado ou diminuído se suas jornadas de moto só contemplam poucos quilômetros de sua casa, se elas o transformam. Quem muito rodou, também não se sinta dono da verdade só por ter colocado milhares de quilômetros no odômetro de sua moto, pois, se seu coração não mudou, é como se nem tivesse saído do sofá.




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