A estrada está pronta. A pergunta é: você está?
- José Caetano

- há 3 dias
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Maio tem um aroma diferente. Não é fácil de descrever: um cheiro de terra que finalmente está seca, depois que as chuvas cessaram, o vento mais frio que sopra leve no início da manhã, trazendo o último pólen de flores que cairão nos próximos meses. Quem anda de moto reconhece esse cheiro antes de reconhecer o que ele significa. O corpo sabe antes da mente.

As chuvas pararam e não foi um anúncio. Aconteceu aos poucos, da forma como as coisas importantes costumam acontecer. Uma tarde sem chuva. Depois outra. Em seguida, uma manhã inteira de céu limpo e a temperatura que convida a sair cedinho, só para ver os raios de sol que surgem em meio às árvores da mata em frente à minha garagem, fazendo os poucos cromados da minha Bonneville T120 Black refletirem de um jeito único.
E então, sem que você tenha tomado nenhuma decisão consciente, você se pega olhando para a garagem.
Fui até a garagem ontem sem nenhuma razão prática. Não estava planejando sair. Só queria estar perto da moto por um momento. Passei a mão no banco, que ainda guardava o frio da madrugada. Verifiquei o nível do óleo por hábito, mais do que por necessidade. Verifiquei as pastilhas de freio que não precisavam de verificação (são novas). Eram gestos sem propósito declarado, mas com um propósito que eu reconhecia bem: era o ritual que antecede a saída. O cérebro já sabia que a temporada havia chegado.
É disso que se trata o Slow Ride. Não de velocidade, não de destino, não de quantos quilômetros você vai fazer no fim de semana. É de presença, e a presença começa antes de dar a partida na moto. Começa quando você limpa o tanque com calma, quando escolhe qual jaqueta vai usar pensando no frio da manhã e no calor do meio-dia, quando prepara o café antes de sair e o bebe em silêncio, olhando para a moto como quem olha para uma velha amiga antes de uma caminhada longa.
Maio não anuncia a temporada. Maio lembra que você sempre soube que ela viria.
Quando lemos os pequenos versos que Bilbo Bolseiro cantarola em sua derradeira partida do Bolsão, logo após deixar o famigerado anel como herança para Frodo, talvez nem percebamos de imediato que a estrada era o que realmente movia aquele velho Hobbit, que anos antes hesitara em sair em sua primeira grande aventura com a comitiva dos anões de Erebor. Porém, depois daquela primeira vez, foi a estrada que passou a dar sentido à vida do pequeno Hobbit.
A estrada muda você. Sempre mudou. E isso não tem nada a ver com a distância percorrida.
Uma tarde de maio numa estrada no interior paulista, com a Bonneville no ritmo certo, sem pressa de chegar a lugar algum... isso é suficiente. Mais do que suficiente. É o tipo de coisa que reorganiza a semana por dentro, que devolve aquela clareza que o ruído do cotidiano vai consumindo aos poucos, sem que percebamos.
A estrada, aliás, está pronta há algumas semanas. O asfalto secou, as temperaturas baixaram, as curvas esperam. A pergunta é outra: você está pronto? Não tecnicamente, não logisticamente. Pronto no sentido de estar presente. Pronto para sair com atenção, para parar quando algo merecer a parada, para ouvir o som do motor como quem ouve uma melodia e não ruído de fundo.
Se a resposta for sim – ou mesmo um "ainda não, mas quero estar" – essa temporada já começou.
A Estrada em frente vai seguindo
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vou indo,
Devo seguir, nada me impeça;
Em seu encalço vão meus pés,
Até a junção com a grande estrada,
De muitas sendas através.
Que vem depois? Não sem mais nada.
(Bilbo Bolseiro em O Senhor dos Anéis)



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