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Slow Ride não é sobre velocidade. É sobre presença.

É bom ligar a moto e deixar o óleo circular pelo motor, enquanto eu visto a jaqueta e caminho os 60 metros que distanciam minha garagem do portão. Faço questão de dar esses minutinhos para baixar a aceleração da moto, enquanto eu também abaixo o ritmo da minha própria mente. Olho para a minha Bonneville. O ronco grave se estabiliza, fica regular, quase como uma respiração. É o momento em que eu também começo a desacelerar. Do lado de fora, o mundo ainda não sabe que eu estou saindo.


Bonneville T120 em estrada secundária

Vivemos num tempo que confunde velocidade com eficiência, e eficiência com felicidade. Tudo precisa ser rápido como passar de dedos pelo feed do Instagram. A notícia precisa ser instantânea, a resposta precisa ser imediata, a experiência precisa ser intensa o suficiente para virar conteúdo antes mesmo de ter terminado. A moto, nesse mundo, virou mais um veículo para adrenalina, e a adrenalina, mais um anestésico.


Não tenho nada contra quem pilota assim. Cada um encontra o que procura na estrada. Mas o que eu procuro é outra coisa.


O Slow Ride não é uma técnica de pilotagem. Não é pilotar devagar, não é evitar ultrapassagens, não é uma regra sobre velocidade máxima. É uma postura diante da estrada e, por extensão, diante da vida. É a diferença entre atravessar uma paisagem e habitá-la.


Quando saio numa manhã de outono — e o outono na região em que vivo tem uma luz particular, dourada e oblíqua, quase o olhar de Capitu — eu não estou indo de um lugar para o outro. Estou presente num trecho de mundo que, se eu não prestar atenção, vai passar como os outros. O cheiro do asfalto molhado da chuva dessa noite que ainda insiste em cair nos primeiros dias de Abril, como que a desafiar a música de Jobim. A sombra das árvores numa avenida que eu já conheço de cor, mas que hoje está diferente. O peso da moto nas curvas. A sensação nos punhos.


Chesterton dizia que o mundo está cheio de coisas maravilhosas que os homens estão cansados demais para ver. Eu penso nisso toda vez que pego a estrada.


A ideia do Slow Ride foi tomando forma sem que eu tivesse planejado. Foi surgindo nas saídas, nas conversas depois das saídas, na percepção de que eu não era o único a sentir que algo estava errado na maneira como as histórias do mundo das motos estavam sendo contadas. Aceleração, conquista, adrenalina, poder. Como se a moto fosse só uma extensão do ego, e não uma porta para outra qualidade de atenção.


Piloto desde que posso, mas foi depois dos quarenta que aprendi a pilotar de verdade. Paradoxalmente, aprendi desacelerando.


O Slow Rider não é necessariamente o homem de meia-idade na clássica — embora esse seja, confesso, o tipo que mais reconheço no espelho. É quem entende que a moto é um instrumento de presença, não de fuga. É quem consegue ficar duas horas numa estrada secundária sem checar o celular e ainda voltar para casa mais inteiro do que saiu. É quem trata a moto como um ritual, não como um atalho.


Não sei se o Slow Ride vai virar movimento. Espero que sim. Mas sei que, toda vez que descrevo esse jeito de pilotar, alguém responde com "é exatamente assim que eu sinto, mas nunca soube como nomear."


Talvez seja isso que o Classic Man Ride existe para fazer: dar nome às coisas que já existem em muita gente, mas que ainda esperam uma palavra para se tornarem reais.

O motor já esquentou. O café acabou. É hora de sair.

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© 2024 por José Caetano. Criado com Wix.com

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