Prazeres lícitos: o que Santo Tomás de Aquino ensina sobre pegar a moto só para tomar um café
- José Caetano

- há 1 dia
- 4 min de leitura
O incômodo da semana
Duas coisas me incomodaram essa semana e por isso eu acabei gravando um vídeo para o canal no YouTube, mas o incômodo acabou sendo tanto que resolvi escrever também. Aliás, eu sempre achei escrever um tipo de catarse, do grego katharsis.
A primeira foi ligar num canal que eu gostava de assistir há tempos e não reconhecer mais quem falava. Não um avatar, não um efeito. Era o mesmo rosto, a mesma câmera, mas o texto lido no teleprompter tinha aquela cadência inconfundível de IA: emoção posta exatamente onde o algoritmo manda pôr, e sempre aquelas três alternativas adjetivadas — "ou isso, ou aquilo, ou aquilo outro."
Cansei em cinco minutos. E olha que eu não sou contra a ferramenta. Uso de vez em quando, principalmente quando a criatividade falta — como quase faltou pra pauta da semana, aliás. O problema não é a IA existir. É deixar que ela assuma a narrativa. Porque aí eu perco a única coisa que tenho de valor: quem eu sou.
A segunda coisa é mais antiga, e mais pessoal. É a pergunta de até onde um prazer é lícito — e a partir de que ponto ele deixa de ser.
Já ouvi de muita gente um certo incômodo na hora que vai pegar a moto para dar uma volta. Há até aquela brincadeira entre os casados, de que precisam de alvará de soltura para dar um passeio de moto. É uma culpa que acabamos jogando em nós mesmos.
Confesso que aqui em casa eu não tenho esse problema do "alvará". Minha esposa sabe que a moto me faz um bem danado pra saúde mental e muitas vezes ela encara o passeio comigo, especialmente quando visito algum café ou restaurante que não conhecia. Além disso, nossas filhas já estão crescidas e nos permitem uns pequenos momentos de vida de casal (isso é importante manter sempre, mas a gente deixa pra outro artigo).
Porém, foi para responder a essa indagação que fui até um dos meus cafés favoritos de moto, sem nenhuma outra finalidade. Nenhum compromisso, nenhuma pauta, nenhuma entrega. Só a estrada e um café. E enquanto tomava esse café, pensei em Santo Tomás de Aquino — porque ele já resolveu essa questão há oitocentos anos, de frente, sem rodeios.
O que é um prazer lícito, segundo Tomás de Aquino

Para São Tomás, nem todo prazer é pecado. Ele até é explícito na Suma Teológica sobre isso: beber vinho não é pecado. O exagero ao beber, sim. O escândalo causado ao beber, sim. Beber contra aquilo que a razão manda, sim — e aqui "razão", no sentido tomista, é algo muito mais profundo do que simplesmente racionalizar sobre algo. É a ordem certa das coisas, a medida que cabe a cada homem levar a sério.
O prazer deixa de ser lícito por acidente — nunca por natureza. Ou porque exageramos. Ou porque ele vai contra um dever que assumimos. Ou porque escandaliza quem está à nossa volta. E quando São Tomás fala de escândalo, significa praticamente "levar alguém a pecar".
Quando andar de moto deixa de ser lícito
Eu estendo isso para a moto, porque é o que eu conheço. Andar de moto é pecado? Não. Mas se o passeio rouba tempo que devia ser da minha casa, das minhas obrigações, de quem me ama e de quem eu amo — se atropela isso — deixa de ser lícito. E se eu aumento o risco por vaidade, sem equipamento de segurança, fazendo manobras arriscadas fora do lugar adequado só para parecer alguma coisa — isso também vai contra a razão. Aí o prazer de andar de moto vira, sim, pecado.
Mas, Deus não é um policial intergaláctico esperando para te multar por um prazer. Fomos feitos para sentir prazer em certas coisas — justamente para que as façamos. Não na busca hedonista, desvairada, que não tem fim. Mas no prazer certo, na medida certa, sem pedir desculpa.
Isso aqui não é sobre motor, cavalo ou torque. É sobre um homem que decidiu, depois de anos vivendo para os outros, que também tem direito a um prazer que não precisa de defesa. Basta que seja lícito, e de acordo com a razão. Quando isso acontece, a gente entra quase em estado de contemplação — de gratidão por aquilo de bom que já recebemos.
Não peça desculpas pelos seus prazeres lícitos. Só vigie para que eles não fujam da licitude.
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