O Papa e o GPS
- José Caetano
- há 14 horas
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Semana passada, o Papa Leão XIV foi visitar as crianças da colônia de férias do Vaticano — o Estate Ragazzi, um programa de verão que existe para os filhos dos funcionários da Santa Sé. O tema escolhido este ano foi A Volta ao Mundo em 80 Dias, de Júlio Verne, o que já diz muito sobre o espÃrito que se queria cultivar: aventura, descoberta, o mundo como algo a ser percorrido e não apenas consumido numa tela.
Uma das crianças fez uma pergunta direta ao Papa sobre suas viagens. O que ele tinha a ensinar de quem já andou tanto pelo mundo?

A resposta que veio com uma história
Leão XIV contou que já se perdeu mais de uma vez ao confiar apenas no GPS — na Itália, em paÃses da Europa, no Peru e também nos Estados Unidos. E lembrou de um tempo diferente: "quando eu era pequeno, todos aprendiam a ler mapas rodoviários. Se precisássemos ir de Roma a Nápoles, ou de Roma a Tivoli, antes de sair, estudávamos: procurávamos o mapa, vÃamos qual caminho era melhor... Hoje todos colocam o GPS no carro ou no celular e vão."
Confesso que quando li isso, precisei relê-lo.
Porque escrevi, há alguns dias aqui no site, exatamente sobre isso. Sobre o mapa de papel dobrado no bolso da jaqueta. Sobre o ritual silencioso de estudar a rota antes de partir. Sobre a diferença abissal entre a rota que todos usam e a rota boa. Sobre como o GPS elimina a variável humana da equação.
Não sabia que o Papa estava pensando a mesma coisa
Mas Leão XIV foi além da anedota do GPS. O que ele disse à s crianças foi, na verdade, uma sÃntese filosófica disfarçada de conversa informal. O PontÃfice disse ser "muito melhor aprendermos a pensar por nós mesmos, a ter a capacidade crÃtica de saber para onde vamos na vida, nas viagens, seja o que for." E foi mais direto ainda: "Não preciso do celular se o cérebro funciona."
Isso não é tecnofobia. É algo muito mais preciso: é uma distinção entre ferramenta e substituto. A tecnologia como serva, não como senhora. O GPS pode me ajudar, mas não pode pensar por mim. E se eu terceirizo o pensamento, perco a capacidade de exercê-lo.
Os motociclistas sabem disso de uma forma que os motoristas de carro raramente precisam encarar com tanta clareza. Numa moto, a dependência tem consequências imediatas. Se o app falha no meio da montanha, você está a sós com a estrada, com o que sabe — ou com o que não sabe. Não tem vidro entre você e a situação. Não tem comodidade amortecendo o erro.
Antes de partir, estude o mapa.
Por isso é que pilotar ensina, antes de qualquer outra coisa, a se preparar.
Há outra camada no que o Papa disse, e esta é a que mais me interessa. Leão XIV alertou para o que chamou de "uma espécie de dependência que, propositalmente, as empresas colocam nos programas e aplicativos que existem no celular." Segundo ele, "elas tentam nos tornar dependentes dessa tecnologia."
Essa frase merece pausa.
Não estamos falando de um problema de caráter, de fraqueza pessoal ou de falta de disciplina. Estamos falando de um design deliberado. Os aplicativos foram construÃdos para ser difÃceis de largar. O GPS foi construÃdo para ser mais fácil do que pensar. A escolha de apertar o botão em vez de dobrar o mapa é, em grande medida, uma escolha que foi tornada fácil para nós — e não por acidente.
A questão então não é simplesmente "use menos o celular". A questão é: de quem é a autonomia sobre sua vida?
É aqui que o Slow Ride encontra a reflexão do Papa num ponto comum. Não se trata de velocidade. Trata-se de presença. De fazer escolhas conscientes em vez de seguir o fluxo do que foi desenhado para nos conduzir sem que percebamos. De pilotar a própria vida em vez de deixar que o algoritmo trace a rota.
O Papa disse às crianças que "Deus não quer olhar para o celular: Deus quer olhar para nossos corações, para nossa vida."
A mesma lógica para a estrada.
A estrada não quer o seu destino digitado. Ela quer a sua atenção. Quer que você veja a curva antes que o app a anuncie. Que você sinta a temperatura mudar antes que o tempo seja atualizado na tela. Que você decida parar naquela venda beira de estrada porque algo na sua intuição — cultivada, exercitada, humana — disse que valia a pena.
O Papa concluiu que "quem vai preparado, mesmo quando acontece alguma coisa, sempre consegue encontrar uma solução. Porque Deus nos deu uma capacidade maravilhosa com a nossa cabeça, com o nosso cérebro."
Essa é, no fundo, a melhor definição de Slow Ride que já ouvi. E veio de um homem que nunca pilotou uma moto – que saibamos.
