O Estado nos quer gordos, adormecidos e domesticados
Existe uma fantasia recorrente entre os que governam: a de que o cidadão perfeito é aquele que não se move sem autorização. Não faz nada sem protocolo. Não decide nada sem um formulário. A moto incomoda porque ela ainda é, por enquanto, um ato de liberdade quase indecente – você parte, você escolhe a estrada, você define o ritmo. Isso é intolerável para quem precisa de corpos previsíveis.

De George Orwell a Tocqueville, passando por Huxley. De Friedrich Hayek a John Stuart Mill. De Chesterton a meu autor preferido, Tolkien, passando por C. S. Lewis… muitos escreveram, previram e até profetizaram o atual Estado da Arte dos governos mundiais. Mas foi Sylvain Tesson, em um recente artigo para a revista In Moto Veritas, que me alertou para uma realidade que se faz cada vez mais presente, em cada rua, pendurada em postes de metal, sempre nos vigiando e fotografando.
Tesson, ao falar sobre sua aventura com uma Yamaha Teneré pelos desertos e estradas do Oriente Médio, seguindo alguns passos do Coronel Thomas Edward Lawrence, o famoso Lawrence da Arábia, escreve o seguinte:
“A administração gosta de corpos pesados, corações adormecidos e almas domesticadas. ‘Desacelerem, para que possamos vigiá-los!’ Um dia (eu aposto), a administração central proibirá o recolhimento do descanso central antes de pegarmos a estrada.”
Sua crítica ao Estado vem logo após reconhecer que os europeus entenderam que a vida pode ser pilotada como uma motocicleta e, por isso, a classe governante insiste em criar regras cada vez mais proibitivas para que você use uma moto como um instrumento de liberdade.
A liberdade que o sistema tolera
A moto, quando usada como instrumento de transporte ou trabalho, é aceita como parte da engrenagem que move o sistema – afinal de contas, você é só um trabalhador motorizado e cumpre as regras. Porém, ouse usar sua moto como uma ferramenta de liberdade, de contemplação, e você vai encarar todo o poder do leviatã que se levanta para dominar. Desde os infinitos radares de velocidade que insistem em criar limites cada vez menores até os impostos inacabáveis.
Há anos eu me submeto a um radar de velocidade próximo da minha casa que marcava o limite de 60 km/h, totalmente compatível com o tamanho da avenida, com a visibilidade possível e com o baixo tráfego da via. Porém, de um dia para outro, a autoridade de trânsito do meu município, despertando de algum pesadelo terrível, imaginou que melhor seria reduzir para 50 km/h aquele limite, sem mais nem menos, sem nenhum acidente ou condição nova que o justificasse. Sem aviso prévio. Limitou por limitar, só isso.
Quem vaga pela Rodovia Floriano Rodrigues Pinheiro, que chega à idílica Campos do Jordão, também já percebeu radares com limite de 40 km/h em plena estrada. Obviamente, numa rodovia, a redução tão drástica da velocidade pode causar acidentes. Antes não mexessem no que estava quieto.

O despotismo mais silencioso
O problema não é novo. Alexis de Tocqueville, observando a democracia americana no século XIX, identificou com precisão perturbadora o que chamou de despotismo suave — um poder que não tiraniza com chicotes, mas que tutela, ampara, regula e antecipa cada decisão até que o cidadão se torne incapaz de atravessar a cidade sem uma instrução oficial. Tocqueville não estava descrevendo uma ditadura. Estava descrevendo a burocracia bem-intencionada. E isso é muito mais perigoso, porque chega sorrindo.
Como teria dito S. Bernardo de Claraval: "L'enfer est plein de bonnes volontés ou désirs (O inferno está cheio de boas vontades e desejos)."
Chesterton, que raramente errava quando o assunto era a arrogância do poder, já havia identificado o mecanismo com precisão cirúrgica em 1920: "A liberdade é a última ideia que parece ocorrer a alguém ao considerar qualquer proposta política ou social. Basta que alguém, por qualquer razão, alegue qualquer evidência de qualquer mal em qualquer prática humana, para que as pessoas imediatamente sugiram que essa prática deve ser suprimida pela polícia." É exatamente isso que acontece a cada novo radar instalado, a cada limite reduzido sem justificativa, a cada regulamento que nasce não de uma necessidade real, mas da necessidade de regular. Alguém alegou um mal. A solução foi suprimir. E ninguém perguntou se a supressão resolvia algo, porque essa nunca foi a questão.
O homem que quer lhe proteger de tudo é, no fundo, o homem que não confia em você para nada. E como todo bom paternalista, ele encontrará sempre uma justificativa nobre para cada nova restrição: a segurança, a saúde pública, o meio ambiente, o bem comum. O cavalete central da moto de Tesson está em boa companhia.
C. S. Lewis é ainda mais direto, em um trecho que deveria ser afixado na porta de toda repartição pública do mundo: “De todos os governos tirânicos, o mais opressivo é aquele exercido pelo bem-estar dos governados (God in the Dock: Essays on Theology - Making of Modern Theology, 1971).” A tirania benevolente não precisa de botas pesadas. Ela usa sapatos de borracha e fala em voz baixa. E é exatamente por isso que você não a ouve se aproximando.
Saruman, Sauron e a tentação da ordem perfeita
Tolkien, que não escreveu sobre política sem querer dizer algo muito maior, nos deu dois retratos definitivos dessa mentalidade e eles habitam a mesma obra (que já li seis vezes, by the way).
Sauron não é um vilão que ama o mal pelo mal. Sauron é um ser que, diante do caos e da imperfeição do mundo, concluiu que a solução era a ordem total, e que essa ordem só seria possível se viesse de uma única vontade. A sua. Ele não queria destruir a Terra Média. Quer administrá-la. Quer que tudo funcione, que nada escape ao plano, que cada criatura encontre seu lugar no sistema. O Um Anel não é uma arma de destruição, mas é um instrumento de controle perfeito. É o sonho de toda burocracia levado às últimas consequências.
Saruman, por sua vez, é o tecnocrata puro. O mago que estudou o inimigo com tanto afinco que acabou admirando seus métodos. Em Orthanc, ele construiu máquinas, derrubou árvores, racionalizou tudo. Ele achava que Sauron estava errado não nos fins, mas nos meios, e que ele poderia fazer melhor.
A ordem que Saruman queria impor a partir da Torre Negra ao pequeno Condado não era feita de correntes, mas de regulamentos, supervisores e racionamento de tabaco. E os hobbits, claro, eram incapazes de entender que aquilo era pelo próprio bem deles.
Tolkien viu tudo isso antes de acontecer. E colocou a resistência não nos grandes reis e nos poderosos, mas nos hobbits, essas criaturas pequenas, arraigadas ao simples, à comida boa, ao cachimbo, ao caminhar sem pressa. Criaturas que não queriam administrar o mundo. Queriam apenas viver nele.
A alma que não se deixa domesticar
No fundo, o que está em jogo não é a velocidade permitida numa avenida ou a motocicleta parada. O que está em jogo é a alma, a capacidade de um homem de tomar decisões, assumir riscos, errar e aprender. Um ser humano que não decide, que não arrisca, que não parte sem autorização, não é um cidadão protegido. É um domesticado satisfeito.
Quando pego minha Bonneville e saio sem destino só para tomar um café na Serra da Mantiqueira, não estou fazendo nada de extraordinário. Estou fazendo o mínimo – o mínimo que qualquer homem livre deveria poder fazer sem que isso se tornasse um ato de resistência. O problema é que, no mundo que Tesson descreve e que muitos pensadores anteciparam, esse mínimo já começa a parecer subversão.
Que assim seja. Eu saio com o cavalete recolhido.





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