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A moto que eu tenho hoje não é a mesma que eu queria aos 30

há 1 dia
8 min de leitura

Há uma pergunta que quase nunca fazemos quando escolhemos uma motocicleta: quem é o homem que está escolhendo?


Normalmente, a conversa é outra. Quanto custa? Quantos cavalos tem? Quanto pesa? Qual é o tamanho do motor? É confortável? Anda bem na estrada? Tem tecnologia? Cabe na garagem?


São perguntas legítimas. Eu mesmo já fiz todas elas.


Mas existe uma pergunta anterior a todas essas: Quem sou eu agora?


Porque uma motocicleta não é apenas uma máquina que escolhemos. Em alguma medida, ela também é uma escolha sobre nós mesmos. E talvez seja por isso que, olhando para trás, eu perceba que as motos que tive não formam apenas uma sequência de modelos. Elas contam uma história.


Uma Sportster 883 Low, a Lupita. Depois uma Dyna Super Glide, a Frô. Uma Street Glide, a Black Betty. A Himalayan, apelidada carinhosamente de Imbalaia. E hoje uma Bonneville T120 Black, que foi batizada com o nome da mulher do herói Samuel Gamgi, de um dos contos que mais li na vida.


Se eu olhar apenas para as motocicletas, vejo uma sucessão de escolhas. Se olhar para o homem que estava pilotando cada uma delas, vejo outra coisa. Vejo mudanças.


Bonneville T120 estacionada à beira da estrada

A motocicleta também revela aquilo que procuramos


Quando somos mais jovens, algumas coisas parecem absolutamente necessárias. Potência. Tamanho da moto. Presença. Velocidade.


Talvez até a sensação de que, ao chegar em determinado lugar, alguém vai olhar para você. E não acho que exista necessariamente algo de errado nisso.


Existe uma idade em que queremos conquistar espaço no mundo. Queremos e precisamos assumir o protagonismo da nossa vida. Queremos construir uma carreira, uma família, uma reputação. Queremos mostrar — aos outros e a nós mesmos — que somos capazes.


E a motocicleta pode participar desse processo. Ela pode ser uma extensão dessa vontade.


Talvez a gente passe boa parte da vida confundindo desejo com identidade.

O problema começa quando continuamos tentando provar a mesma coisa depois que já não precisamos mais prová-la.


É interessante perceber que o filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard dedicou boa parte de sua obra justamente ao problema de tornar-se aquilo que se é. Na leitura mais conhecida de sua filosofia, a vida humana não é simplesmente uma sequência de experiências, mas um processo no qual precisamos assumir escolhas e compromissos que dão forma à nossa existência.


Isso muda a maneira de olhar para as nossas escolhas. A questão deixa de ser apenas “O que eu quero?” E passa a ser: “Que tipo de homem está querendo isso?”


Talvez a gente passe boa parte da vida confundindo desejo com identidade. E, daí, existe uma armadilha particularmente moderna nisso.


Vivemos cercados por possibilidades.


Podemos trocar de carro, de moto, de profissão, de cidade, de roupa, de equipamento, de destino de viagem. Podemos acompanhar centenas de pessoas diferentes nas redes sociais e, em poucos minutos, descobrir dezenas de coisas que supostamente deveríamos desejar.


A cada semana existe alguma coisa nova para comprar, experimentar ou alcançar.


Byung-Chul Han, em sua obra "Sociedade do Cansaço" descreve esse ambiente como uma sociedade do desempenho: não somos mais apenas pressionados por uma autoridade externa dizendo o que devemos fazer. Passamos a cobrar de nós mesmos produtividade, desempenho e melhoria constante. Tornamo-nos, em certo sentido, empreendedores de nós mesmos.


Isso também chegou ao motociclismo.


Não basta mais ter uma moto. É preciso ter a moto mais nova. A preparação certa. O equipamento certo. A viagem certa. A fotografia certa. O acessório certo.


E, de preferência, alguma coisa que demonstre que estamos vivendo melhor do que os outros.


É uma espécie de competição silenciosa. Mesmo quando ninguém está competindo.


Talvez por isso exista uma liberdade particular em acumular alguns anos na prateleira da vida e perceber que algumas dessas coisas simplesmente deixam de importar.


Você percebe que não precisa mais transformar cada escolha numa declaração pública sobre quem você é. A moto pode voltar a ser apenas uma moto.


Uma coisa que você gosta. Uma coisa que você usa. Uma coisa que lhe dá prazer.


O homem que precisa provar alguma coisa não está necessariamente errado


Existe uma diferença importante aqui, porque eu não penso que o homem de 25 anos esteja errado por querer uma moto mais potente. Nem que o homem de 40 esteja necessariamente mais sábio por preferir uma moto menor.


Seria apenas trocar um tipo de vaidade por outro.


A questão não é a potência.


É o motivo.


Uma Street Glide pode fazer sentido para um homem e uma Bonneville para outro. Uma Himalayan pode ser exatamente aquilo que alguém precisa em determinado momento da vida. Um scooter pode ser a moto de alguém hoje.


O problema aparece quando começamos a escolher coisas para construir uma identidade que não corresponde mais à nossa realidade.


Talvez seja isso que aconteça quando envelhecemos. Não necessariamente passamos a querer menos. Começamos a querer outras coisas. E isso é bastante diferente.


Chesterton e a sabedoria de não começar do zero


G. K. Chesterton tinha uma maneira peculiar de olhar para a tradição.


Em Ortodoxia, Chesterton define a tradição como “a democracia dos mortos”: dar voz aos nossos antepassados, recusando a ideia de que apenas aqueles que estão vivos têm direito a participar da conversa sobre como devemos viver.


Gosto dessa ideia porque ela ajuda a compreender outra coisa sobre envelhecer.


Mudar não significa necessariamente abandonar tudo, e existe uma diferença entre mudar de direção e desprezar o caminho percorrido.


A minha T120, por exemplo, não torna as motos anteriores um erro. A Street Glide – que foi uma moto que sempre sonhei – não foi uma escolha equivocada simplesmente porque hoje eu prefiro outra coisa.


A Himalayan não foi apenas uma etapa que precisei superar, mas cada uma delas pertence a uma parte da minha história. Cada uma me ensinou alguma coisa. Cada uma correspondeu, de algum modo, ao homem que eu era.


Talvez amadurecer seja justamente conseguir olhar para as próprias versões anteriores sem precisar sentir vergonha delas.


Você não precisa ter sido o homem de hoje aos 25 anos e vice-versa. Isso seria até estranho.


Há coisas que só conseguimos desejar depois de tê-las perdido


Existe outro detalhe nessa mudança que acho ainda mais interessante. Pois, com o passar dos anos, algumas coisas que pareciam pequenas começam a ficar grandes.


O Tempo.


O Silêncio.


Uma conversa sem pressa.


Um café.


Uma estrada secundária.


A possibilidade de sair de casa sem precisar chegar a lugar algum.


Uma tarde em que ninguém está cobrando produtividade.


Talvez porque, depois de algum tempo, a gente comece a perceber o preço das coisas que antes pareciam gratuitas.


O tempo não era gratuito.


A atenção não era gratuita.


A presença não era gratuita.


A própria vida não era gratuita.


Porque chega uma hora em que aquilo que parecia ser o destino se revela apenas parte do caminho. E isso não diminui a importância das coisas.

Byung-Chul Han ajuda a entender por que isso é tão difícil no nosso tempo. A sociedade do desempenho transforma até o descanso em alguma espécie de tarefa: precisamos descansar para voltar a produzir. Precisamos viajar para voltar renovados. Precisamos praticar hobbies para melhorar nossa qualidade de vida.


Até o descanso pode virar desempenho.


E talvez seja justamente aí que uma motocicleta possa recuperar uma função que não tem nada a ver com performance. Ela pode nos devolver ao presente.


Não porque uma motocicleta seja uma solução filosófica. Mas porque pilotar exige presença.


A estrada está ali. O corpo está ali. O motor está ali. O tempo passa.


E, durante alguns quilômetros, não existe muito mais para fazer além de estar naquele lugar, e isso é uma coisa bastante simples. E talvez por isso mesmo seja tão difícil.


Não quero mais uma moto para provar quem sou


Quando penso na Bonneville que tenho hoje, é isso que mais me chama atenção. Não acho que seja a melhor moto que já tive. Aliás, cada vez menos acredito nessa ideia de “melhor moto”.


Existe a moto adequada para determinada pessoa, determinada fase, determinado uso, determinado momento.


A pergunta não é necessariamente qual motocicleta é superior.


A pergunta é: O que você está procurando agora?


Hoje, eu não preciso que minha moto seja a maior. Não preciso que seja a mais rápida. Não preciso que ela imponha alguma coisa quando eu chego. Não preciso que alguém veja a moto e construa uma imagem sobre mim.


Eu preciso gostar dela.


Preciso gostar de olhar para ela na garagem. Preciso gostar do som do motor. Preciso gostar da maneira como ela entra numa curva. Preciso gostar de sair com ela sem ter necessariamente um motivo.


Talvez isso pareça pouco... Para mim, hoje, não é.


Von Balthasar e a ideia de que a vida não é uma invenção solitária


Hans Urs von Balthasar leva essa questão para um lugar ainda mais profundo.


Em sua reflexão sobre vocação, ele insiste na ideia de que a pessoa não se realiza simplesmente inventando a si mesma. A vocação envolve uma resposta: há um chamado, uma missão, uma forma particular de existência que precisa ser reconhecida e assumida.


Isso me faz pensar que talvez a maturidade também seja uma espécie de escuta.


Quando somos jovens, temos uma tendência muito forte de perguntar: “O que eu posso conquistar?”


Depois de algum tempo, talvez a pergunta comece a mudar: “O que realmente vale a pena?”


Não é uma pergunta sobre desistência. É uma pergunta sobre discernimento.


Há coisas que podemos fazer e não precisamos fazer. Há coisas que podemos comprar e não precisamos possuir. Há lugares para os quais podemos ir e não precisamos conhecer. Há motos que podemos admirar e que não precisam estar na nossa garagem.


Essa distinção parece pequena, mas talvez seja uma das formas mais concretas de liberdade.


E então aparece uma pergunta maior


Joseph Ratzinger, na Spe Salvi, observa que o homem vive cercado de esperanças menores: na juventude, o amor, a carreira, determinada posição, determinado sucesso. O problema é que, mesmo quando essas esperanças se realizam, frequentemente descobrimos que elas não eram suficientes para preencher toda a nossa expectativa.


Essa talvez seja uma das coisas mais importantes para compreender a relação entre idade, desejo e motocicleta.


A moto é uma esperança pequena.


Uma boa esperança, talvez.


Uma esperança legítima.


Mas pequena.


Ela pode nos levar a lugares. Pode nos dar prazer. Pode acompanhar uma fase importante da vida. Pode até nos ajudar a perceber coisas sobre nós mesmos.


Mas ela não consegue responder à pergunta fundamental sobre quem somos.


Nenhuma moto consegue. Nenhuma viagem consegue. Nenhuma compra consegue. Nenhuma conquista consegue.


Porque chega uma hora em que aquilo que parecia ser o destino se revela apenas parte do caminho. E isso não diminui a importância das coisas.


Pelo contrário. Coloca cada uma delas no seu devido lugar.


Talvez seja por isso que eu goste tanto de uma motocicleta clássica


Não porque ela seja antiga. Nem porque pareça antiga. Mas porque ela não tenta resolver tudo.


Uma motocicleta clássica não precisa ser uma promessa de futuro, mas ela pode simplesmente ser uma presença no presente.


Você olha para ela e não precisa imaginar que está comprando uma versão melhor de si mesmo. Você pode apenas sair para andar.


Talvez essa seja uma das razões pelas quais, hoje, uma Bonneville faça sentido para mim.


Não porque ela represente quem eu quero parecer, mas porque, de alguma maneira, ela conversa com quem eu me tornei. E talvez essa seja a verdadeira mudança.


Aos 30, eu perguntava qual moto eu queria.


Hoje, começo a perguntar outra coisa:


que homem eu sou — e o que faz sentido para esse homem?


Não sei qual será a próxima motocicleta. Talvez seja outra clássica. Talvez não.


Mas acho que aprendi uma coisa, ou seja, a próxima moto não precisará provar nada sobre mim. Ela só precisará conversar comigo quando chegar a hora.


Assista ao vídeo


No vídeo abaixo, eu levo essa reflexão para a estrada e conto um pouco da história das motocicletas que fizeram parte da minha vida — e do homem que estava pilotando cada uma delas.



E talvez a pergunta mais interessante não seja qual foi a melhor moto que você já teve.


Talvez seja outra: a moto que você tem hoje ainda combina com o homem que você se tornou?

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