A CNH permite dirigir. O pai ensina a ser piloto
Há um momento na vida de um pai em que ele percebe que já não consegue proteger os filhos de tudo. A mão que antes segurava a deles para atravessar a rua começa a soltar. Eles passam a tomar suas próprias decisões, a enfrentar o mundo e, inevitavelmente, a assumir riscos que já não podemos assumir por eles.
É nessa hora que percebemos que nossa missão nunca foi simplesmente protegê-los. Era prepará-los.
Eu penso nisso quando imagino minhas duas filhas atrás do volante de um carro ou sobre uma motocicleta. E penso também na minha própria casa, onde elas cresceram entre o cheiro de combustível, a fumaça do charuto, o aroma de um bom assado. Cresceram vendo motos, ouvindo motores e acompanhando o pai em algumas das coisas que fazem parte daquilo que ele ama.
Um dia nossos filhos vão pegar a chave do carro ou subir numa motocicleta e sair sozinhos pela primeira vez. Nesse momento, não estaremos mais ao lado deles para segurar o volante, apertar o freio ou dizer “cuidado”. Tudo o que poderíamos ensinar terá que estar dentro deles.
É então, meu caro amigo que também é pai, que você percebe que nossa missão, nosso mister, não é algo fácil. Ninguém nos entregou o manual de instruções desse complexo aparelho que são os filhos. Tivemos que aprender a lidar com eles na prática. No máximo, aprendendo com alguém que já havia vivido a mesma experiência antes de nós.
E talvez seja justamente por isso que a paternidade nos obrigue a uma coisa que muitos homens não gostam muito de fazer: continuar aprendendo.

O pai precisa se formar
John Heinen, editor do Catholic Gentleman, nos lembra que “um pai deve estar bem formado na sua própria capacitação para que a formação familiar funcione. Você não pode dar o que não tem.” Concordo com ele. E por isso uma das coisas que mais me obriga a continuar estudando é justamente essa máxima: para ensinar minhas filhas, preciso, antes de mais nada, aprender.
O pai não pode simplesmente mandar o filho estudar, frequentar a igreja ou aprender bons valores. Ele precisa viver aquilo que pretende transmitir. Afinal, os filhos aprendem muito mais com o exemplo do que com uma teoria bem ensinada.
Para ensinar nossos filhos, por exemplo, a pilotar, precisamos conhecer a técnica, a percepção, a prudência, a leitura da estrada e o respeito às regras.
Não basta dizer: “ande devagar”. É preciso que eles tenham visto você andar devagar quando poderia acelerar.
Não basta dizer: “use o capacete”. É preciso que eles tenham visto você colocá-lo toda vez que sobe na moto.
Não basta falar sobre responsabilidade. É preciso que eles tenham visto você assumir as consequências dos próprios erros.
O pai precisa assumir a responsabilidade pela formação
Conhecendo meu público, nem preciso dizer que escola serve para ensinar — mais ou menos, e às vezes bem menos do que mais — os conteúdos das disciplinas educacionais. E nem vou entrar aqui naquilo que algumas escolas acabam deturpando.
Mas nós, pais, temos a primeira responsabilidade pela formação daqueles seres maravilhosos que colocamos no mundo. A verdadeira educação não pode ser terceirizada integralmente para a escola, professores, instituições ou outras pessoas.
Eu preciso ensinar, conversar, orientar, corrigir e preparar minhas filhas para enfrentar a realidade, que muitas vezes virá com o peso de uma bigorna de aço caindo sobre o dedão do nosso pé.
Isso é típico da realidade.
Ela é dolorosa.
E parte da nossa obrigação como pais é preparar nossos filhos não apenas para os dias bons, mas também para os dias difíceis. É por isso que não basta ensinar uma criança a dirigir um carro ou pilotar uma motocicleta. Precisamos ensiná-la a compreender aquilo que está conduzindo.
A formação não termina
Minhas filhas já estão começando a fase adulta da vida, mas nem por isso chegou o momento de me aposentar da formação. Nem da minha, nem da delas.
Eu preciso continuar me formando e ajudando-as nos processos da vida. Não existe um momento em que eu possa dizer: “pronto, minhas filhas já estão formadas”.
A formação não termina porque os filhos cresceram. Talvez ela apenas mude de forma.
Quando são pequenos, seguramos suas mãos para atravessar a rua. Mais tarde, ensinamos a olhar para os dois lados. Depois, entregamos a chave de um carro ou de uma motocicleta e descobrimos que aquela mão que segurávamos já precisa aprender a tomar suas próprias decisões.
Mas ainda estamos ali.
O pai precisa estar presente e fazer coisas com os filhos
Uma das coisas mais interessantes do processo de aprendizado é que os filhos aprendem muito mais facilmente quando praticamos as coisas com eles.
E é aqui que podemos viver um dos momentos mais mágicos para nós, que amamos motores: ensinar os filhos a pilotar — e a dirigir, claro.
Poder transmitir às minhas filhas algumas das mesmas emoções que eu sinto ao pilotar minha moto é algo único. Deixar que elas possam sentir por si mesmas até onde um veículo motorizado pode levá-las é uma experiência que vai muito além de simplesmente ensinar a controlar uma máquina.
É ensinar liberdade.
Mas também é ensinar responsabilidade.
Imagine, então, que as regras para obtenção da CNH deram uma boa aliviada. Com as novas regras, o candidato pode fazer a formação prática com instrutor autorizado e, cumpridos os requisitos, utilizar inclusive veículo próprio. A carga mínima obrigatória de aulas práticas para as categorias A e B também foi reduzida para duas horas.
Duas horas podem ser suficientes para cumprir uma exigência legal. Mas duas horas não formam um motorista.
Ninguém nos entregou o manual de instruções desse complexo aparelho que são os filhos.
Quando minha filha mais velha foi tirar a CNH, ela precisou fazer as antigas 20 horas de aula e quase não tive tempo de ajudá-la no processo. Mas não me dei por vencido. Estive com ela em todos os momentos e acompanhei todo o processo. Fora o que eu já havia ensinado antes.
Agora, minha mais nova já está quase com 18 anos e, ao que parece, poderá chegar mais rapidamente à sua habilitação. E eu vou precisar ajudá-la muito mais.
Se você for um pai realmente disposto a levar essa missão a sério, pode até fazer a formação necessária para se tornar um instrutor de trânsito autorizado. Mas não é disso que estou falando.
Estou falando de algo que começa muito antes de colocar o filho atrás de um volante ou sobre uma motocicleta.
Estou falando de formação.
A CNH permite dirigir. O pai ensina a ser piloto
Nós, que já dirigimos e pilotamos há alguns anos, sabemos que a CNH não é a meta.
A CNH é uma régua do básico. Ela comprova que você cumpriu determinados requisitos para poder conduzir legalmente um veículo. Mas não transforma ninguém, por si só, em motorista ou piloto.
A autoescola não ensina necessariamente como escolher uma moto. Não ensina a verificar o óleo, a corrente ou os fluidos de freio. Não ensina a calibrar corretamente os pneus ou identificar uma bateria que está começando a morrer. Não ensina necessariamente o que fazer diante de um pneu furado no meio da estrada.
Não ensina a ouvir um motor.
Não ensina a perceber uma vibração diferente.
Não ensina a reconhecer aquele pequeno sinal de que alguma coisa não está funcionando como deveria.
E é aí que entra o pai.
É ele quem pode levar o filho para a garagem e mostrar como se verifica o óleo. É ele quem pode ensinar a lubrificar a corrente, conferir os pneus, cuidar dos freios, trocar uma lâmpada, entender o funcionamento básico do motor e fazer uma inspeção antes de pegar a estrada.
É ele quem pode ensinar que manutenção não é frescura. Que cuidar da máquina é cuidar da própria vida. E é também ele quem precisa ensinar coisas que não aparecem em nenhum manual de proprietário.
Cabe a nós mostrar, com nosso exemplo, que velocidade não é demonstração de conhecimento nem de masculinidade.
Que coragem não é ausência de medo.
Que pilotar rápido não significa necessariamente pilotar bem.
Que uma motocicleta não é um brinquedo.
Que um carro não é uma extensão do ego.
Que devemos respeitar a máquina e a própria natureza.
E, acima de tudo, cabe a nós ensinar, pelo exemplo, como assumir a responsabilidade pelas consequências das nossas escolhas.
Porque é isso que estamos realmente ensinando quando colocamos nossos filhos diante de um volante ou de um guidão. Não estamos ensinando apenas a acelerar, frear, trocar marchas ou fazer uma curva. Estamos ensinando responsabilidade.
Estamos ensinando prudência.
Estamos ensinando liberdade com consequência.
E estamos, talvez sem perceber, ensinando um pouco sobre o que significa ser adulto.
O pai que leva o filho para a garagem, que ensina a trocar o óleo, que mostra como cuidar da motocicleta, que senta ao lado dele no carro e acompanha seus primeiros quilômetros está fazendo muito mais do que ensinar mecânica ou direção.
Está dizendo:
“Eu estou aqui. Vou ensinar você. E, enquanto você aprende, vou aprender também.”
Por fim, vou repetir uma frase do mesmo autor que citei no começo:
“Be a good example, they are watching you.”
Nossos filhos estão olhando. Sempre estiveram.
E talvez essa seja a maior responsabilidade de um pai: lembrar que, muito antes de ouvirem aquilo que dizemos, nossos filhos estão aprendendo aquilo que fazemos.




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