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O Mapa Não Mente: ele sabe mais sobre a estrada do que seu app preferido

Existe um ritual silencioso que acontecia antes de qualquer viagem. Não é verificar o óleo, não é checar a pressão dos pneus, não é separar o equipamento. Era abrir o mapa. Não o aplicativo. O mapa. Aquele objeto antiquado, levemente ultrajante na sua insistência em existir numa era em que tudo cabe numa tela de celular. Um retângulo de papel que, quando desdobrado sobre a mesa, tem a insolência de ocupar espaço.


Mapas antigos

A tirania gentil da voz feminina


Você se lembra a última vez em que você teve que recorrer a uma mapa de papel para planejar uma rota? Confesso que nos últimos anos, com o surgimento do Google Maps e dos demais aplicativos de GPS, comecei, pouco a pouco, a deixar de planejar minhas rotas de viagem, confiando cada vez mais na tecnologia. Hoje em dia, então, simplesmente coloco meu destino no app e deixo que ele faça meu caminho, quase que sem dar uma conferida para ver se ele não vai me meter em alguma enrascada.


O aplicativo é prático, confere as condições de trânsito, encontra os endereços mais diversos e vai me apontando o caminho muito melhor do que a sinalização na beira da estrada, muitas vezes obsoleta ou confusa. Isso porque é fácil. Porque dispensa pensar.


O problema é que dispensar pensar, numa moto, é exatamente o contrário do que estamos fazendo aqui.


O GPS é um produto do utilitarismo em seu estado mais puro: ele elimina a variável humana da equação. Quer ir de um ponto A ao ponto B? Sem dúvida, sem desvios, sem a infeliz possibilidade de que você se perca numa estrada secundária e descubra, às cinco da tarde, uma paisagem que não estava nos planos e que, justamente por isso, vai durar a vida inteira na memória.


O GPS calcula a rota que todos usam. Não a rota boa. Há uma diferença abissal entre as duas.


O mapa e a inteligência do papel


Um mapa que tenha a topografia, por exemplo, me diz algo que o GPS nunca vai se dar ao trabalho de mencionar: o formato do mundo. As curvas de nível contam a história da serra antes que eu chegue nela. A mancha azul indica o rio que cruza a estrada quilômetros antes que eu sinta a umidade do ar mudar. O pontilhado diz: aqui a estrada some um pouco, mas segue adiante.


Há uma inteligência sedimentada no mapa que vai muito além da logística. Ele é um artefato cultural. Cartógrafos foram às montanhas, andaram pelas estradas, mediram ângulos e distâncias, voltaram, desenharam. Aquilo que está impresso carrega, de certa forma, o suor e a curiosidade de alguém que esteve lá antes de mim. Usar um mapa é uma conversa com esse alguém.


O inconveniente da dependência


Mas o assunto tem uma dimensão mais prosaica — e aqui me permito alguma ironia, porque a situação é genuinamente cômica.


Imagine a cena: você está numa moto, em algum ponto nalguma estrada do interior, o celular preso naquele suporte no guidão. Tudo muito prático, muito moderno, muito exposto. O sinal some. Ou a bateria chega a 3%. Ou, na hipótese mais cinematográfica, a moto toma uma curva com entusiasmo excessivo e o aparelho voa para o asfalto num gesto dramático e definitivo.


(Meu amigo Mateus que o diga, quando ficamos mais de uma hora na Regis Bittencourt procurando seu iPhone que resolveu voar até parar a centenas de metros de distância no gramado central e que só achamos por sorte, porque ironicamente ele estava no modo silencioso e não adiantava absolutamente nada ligar para ele no meio da estrada movimentada).


Nesse momento, você não tem GPS. Você não tem mapa offline, porque não baixou. Você não tem a menor ideia de qual é o próximo município. E tem, no painel da sua moto, um retângulo de vidro partido que tenha custado seu rim esquerdo, talvez.


A alternativa — o mapa de papel dobrado no bolso interno da jaqueta — teria sobrevivido à curva, à chuva e provavelmente à queda do celular no asfalto. Mapas de papel não ficam sem bateria. Não dependem de sinal. Não exigem atualização e não chamam a atenção de ninguém à beira da estrada.


Esse último ponto merece uma pausa. Há algo que nenhum manual de segurança para motociclistas discute com a seriedade devida: o celular no painel não é apenas uma fragilidade logística. É um convite. Numa era em que paramos em postos de gasolina, em beiras de estrada, em cidades que não conhecemos, exibir um smartphone premium preso num suporte articulado é comunicar, em silêncio, que o custo do seu equipamento justifica uma atenção que você preferiria não receber.


O mapa não faz isso. O mapa é invisível. O mapa é, nesse sentido, não apenas mais sábio como também mais discreto.


Sobre o prazer de se perder com método


Existe um tipo de perda que é na verdade um achado. Todo piloto que saiu da rota principal sem entrar em pânico já sabe disso. Já o GPS não tolera perda. Ele recalcula imediatamente, com uma urgência levemente ofendida, como se o desvio tivesse sido um erro pessoal. Recalculando. Volte à rota mais rápida. Não olhe para o lado. Não pare naquela venda que parece ter sido construída antes da rodovia. Não converse com o senhor que está sentado na soleira da porta.


O mapa, ao contrário, torna o desvio legível. Você olha para ele e entende: estou aqui, aquele pontilhado ali é a próxima estrada, e se seguir 20 quilômetros nessa direção chegarei a uma cidade que nunca ouvi falar. Isso, para quem pilota no espírito do Slow Ride, é uma oferta, não um problema.


Afinal de contas, como sempre falo aqui, o Slow Ride não é sobre velocidade reduzida. É sobre presença aumentada. E não há como estar presente num lugar que você atravessou sem olhar, guiado por uma voz que já estava calculando a próxima instrução enquanto você ainda processava a última.


O mapa como objeto


Há também, é preciso dizer, uma dimensão puramente estética que não podemos ignorar. Mapas são belos. As linhas dos rios, as manchas de altitude, a tipografia cuidadosa dos nomes de cidades pequenas. O mapa rodoviário do Estado de São Paulo dos anos 1980, que foi de meu saudoso pai, com suas cores desgastadas e as rodovias secundárias marcadas a mão... Isso é um documento. Tem peso, textura, cheiro de tempo. É o oposto da efemeridade digital.


mapas do Brasil

Guardar um mapa numa bolsa de viagem é um gesto de confiança no mundo analógico. É dizer: confio que a estrada existe, que o cartógrafo não mentiu — ok, eu sei que certos institutos brasileiros têm virado o mapa de cabeça pra baixo ultimamente —, que o papel vai durar mais do que a bateria.


O mapa e o homem


Tolkien era obcecado com a consistência geográfica da Terra-Média. Não como detalhe técnico, mas como condição de verdade: um mundo que não tem onde estar não existe de verdade. Os mapas eram parte da criação, não ilustração dela.

Há sabedoria nisso para além da literatura.


Antes de partir, abra um mapa. Estude o relevo. Identifique as estradas que sobem antes das que descem. Memorize pelo menos dois ou três pontos de referência — cidades, rios, chapadas. Leve o mapa no bolso.


Quando chegar ao destino, você terá a satisfação de quem fez uma viagem com o próprio entendimento, não com o de um algoritmo.


E se se perder no meio do caminho, ótimo. Você tem um mapa. Vai se achar.

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© 2024 por José Caetano. Criado com Wix.com

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