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O Homem que É o Mesmo em Todo Lugar

No último domingo, fui host do Distinguished Gentleman's Ride em Taubaté. Enquanto observava os participantes chegando, cada um com sua moto, sua roupa, seu jeito de parar, de cumprimentar, de ocupar o espaço, percebi que estava diante de algo raro. Não eram homens que haviam se fantasiado para a ocasião. Eram homens que simplesmente tinham aparecido como são. Isso é mais difícil do que parece.


Homem elegante com terno

Existe uma confusão antiga entre elegância e exibição. O mundo moderno e as redes sociais aprofundaram isso a níveis quase patológicos. Tendemos a tratar elegância como performance. Como algo que se mostra, que se anuncia, que se calibra pelo olhar do outro. O resultado é um paradoxo curioso: quanto mais um homem se esforça para parecer elegante, mais longe ele vai ficando dessa meta.


A vulgaridade, ao contrário do que muitos pensam, raramente é uma questão de pobreza. É uma questão de excesso. O excesso de volume, de logotipo, de cor, de barulho, de presença. O homem vulgar precisa ocupar mais espaço do que lhe cabe. Precisa que todos saibam o que ele tem, o que pagou, onde esteve. Há uma ansiedade profunda nisso — a ansiedade de quem não confia que é suficiente sem a moldura. O homem elegante, por contraste, ocupa exatamente o espaço que é seu. Nem mais, nem menos.


Mas o que define esse espaço?


Aqui chegamos ao que me parece ser o verdadeiro coração da elegância: a coerência. Não a coerência estética — embora ela seja um reflexo, já que estética e ética estão intimamente ligadas — mas a coerência de caráter. Ser o mesmo na rua e na mesa. Na moto e no espelho. Diante de um cardeal e diante de um mecânico. Não porque o homem elegante ignora o contexto, mas porque ele traz consigo algo que o contexto não altera: uma visão formada de quem ele é e de como quer estar no mundo.


Trabalhei durante anos em ambientes onde a elegância era, de certa forma, uma exigência implícita. Na Itália, nos corredores do Vaticano, nos bastidores de produções de moda. E o que aprendi não foi que elegância custava caro — embora muitas vezes estivesse rodeada de coisas caras. Aprendi que elegância era reconhecível porque era consistente. O homem verdadeiramente elegante que eu via naqueles ambientes era aquele que se comportava da mesma forma quando as câmeras estavam presentes e quando não estavam. Que vestia bem não para ser visto vestindo bem, mas porque isso fazia parte de como ele se respeitava. Essa distinção é tudo.


Um dos homens mais elegantes que conheci era um idoso sacerdote salesiano que passava horas no confessionário. Em anos anteriores havia sido um dos melhores professores de latim do Brasil, mas terminava sua jornada terrena salvando almas e dando bons conselhos de etiqueta. Era um homem baixo e bem magrinho, trajando roupas simples, mas até sua maneira de se sentar à mesa ou de cumprimentar seus penitentes o transformavam num gigante.


O que a moto tem a ver com elegência


Quando você pilota uma Bonneville numa estrada vazia, de manhã cedo, sem destino urgente, não há ninguém para impressionar. Não há audiência. O ronco do motor não é para ninguém além de você e da estrada. E é precisamente aí, nessa ausência de plateia, que o caráter surge. Você descobre como realmente pilota. Com que ritmo, com que atenção, com que presença.


POV de Bonneville em estrada

O Slow Ride, um tema que sempre tocamos aqui, por exemplo, não é uma técnica. É uma postura diante da vida. E essa postura, curiosamente, é a mesma que define um homem elegante: a recusa em ser apressado pelo olhar dos outros.


Há uma diferença entre o homem que se veste bem para sair e o homem que se veste bem. A preposição "para" é uma armadilha. Ela implica destinatário, implica performance, implica que sem o evento ou sem o olhar externo, o cuidado desaparece. O homem verdadeiramente elegante não tem "para". Ele simplesmente é.


Isso não significa indiferença ao mundo ou aos outros. Significa que a origem do cuidado é interna, não externa. Ele passa o colarinho porque aprecia a forma que um colarinho bem posto dá ao rosto. Ele escolhe o relógio com atenção porque um relógio bom é um objeto digno de atenção. Ele não compra o que está na moda, mas compra o que está alinhado com quem ele é.


E quando ele não tem dinheiro para comprar o que quer, ele espera. Ou escolhe menos, mas melhor. A elegância também é isso: a paciência de quem não precisa provar nada agora.


No DGR de domingo, havia homens com motos de trinta anos de uso e homens com motos novas. Havia ternos de alfaiataria e havia combinações cuidadosas com peças simples. O que os tornava parte do mesmo evento — do mesmo espírito — não era o valor das motos ou das roupas. Era o cuidado. Era a evidência de que cada um havia pensado sobre quem queria ser naquele dia, e havia aparecido dessa forma.


Vulgaridade não é usar uma jaqueta barata. Vulgaridade é usar uma jaqueta de dez mil reais com a etiqueta virada para fora, para que ninguém deixe de notar. A diferença está na direção do gesto: para dentro ou para fora. Para si ou para os outros.


Elegância é, no fundo, uma forma de integridade. A palavra vem do latim eligere — escolher. O homem elegante é aquele que escolheu. Escolheu um estilo de vida, uma forma de vestir, uma maneira de andar, uma velocidade de existir, e essas escolhas são coerentes entre si porque todas elas emanam da mesma fonte: uma visão clara de si mesmo.


É por isso que elegância não se compra. Pode-se comprar o terno, a moto, o perfume. Mas a coerência que os une — a sensação de que aquele homem estaria igualmente à vontade num café em Lisboa ou numa estrada no Vale do Paraíba — essa não está à venda em lugar nenhum.


Ela se constrói. Devagar. Com atenção. Sem pressa. Como uma boa pilotagem.


José Caetano é jornalista, fotógrafo e editor do Classic Man Ride. É host do Distinguished Gentleman's Ride em Taubaté e pilota uma Triumph Bonneville T120.

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