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Você sabe tomar café?

  • Foto do escritor: José Caetano
    José Caetano
  • 18 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Esta manhã, minha Bonneville cortou o Vale do Paraíba com o vento frio de novembro batendo no rosto, e eu parei em Tremembé atrás de uma xícara de café que valesse a viagem. Até porque a vida é muito curta para desperdiçá-la com conversas inúteis e cafés ruins.


xícara de café espresso sendo preparada

Encontrei no Café Oblívio exatamente o que procurava: um espresso do Havanna – aquele Catuaí Vermelho Cereja Descascado Honey Process, com notas generosas de doce de leite, baunilha, açúcar mascavo e mel silvestre. O barista puxou a alavanca com precisão, a crema dourada se formou, e o primeiro gole foi especial. Mas a pergunta que não me sai da cabeça é simples: eu sei tomar café de verdade? Você sabe tomar café?


Confesso que só fui aprender a tomar café de verdade quando, por razões de trabalho, fui me aventurar pela Itália, talvez o país que melhor soube tratar os grãos de café produzidos por aqui, num lugarzinho pitoresco chamado Zer0ttoNove Café et Caffé, na Piazza Sant'Eustachio, em Roma.


Por sinal, cabe aqui um parêntese importante, porque se você é turista e deseja ser bem tratado nesse comércio no centro de Roma, desista. É um café para os locais e os baristas estão preocupados em servir um bom café, e depois não digam que eu não avisei. Mas o café vale cada Euro.


O Brasil segue sendo o maior produtor e exportador de café mundial. Em 2025, a safra deve fechar próxima das 55 milhões de sacas, com recuperação tímida após anos difíceis de clima. Exportamos bilhões de dólares – só nos primeiros meses o valor já supera anos inteiros anteriores –, mas o volume cai porque o preço internacional está nas alturas. 


Dentro de casa, o consumo até retraiu um pouco com a crise, porém algo bonito acontece: cafeterias como o Oblívio, em Tremembé, o Tertúlia, em Taubaté ou o histórico Coffee Lab da Isabela Raposeiras na Vila Madalena, em São Paulo, mostram que o brasileiro começa, enfim, a valorizar o próprio ouro.


Lá no Lab, que Isabela abriu em 2009 como laboratório vivo de torra e barismo, aprende-se que café não é combustível: é ritual. Ela foi uma das primeiras a trazer a onda de cursos e baristas de macacão colorido explicando cada xícara, para São Paulo.


O Oblívio segue a mesma linhagem: a barista pergunta o que você gosta, indica o método ideal e, de repente, um Arara Natural com Sprouting Process ou um Catucaí fermentado 72 horas revelam sabores que você nem sabia que existiam.


No Tertúlia by Balde Café, no histórico edifício Monteiro Lobato, no centro de Taubaté, é o proprietário, Rodrigo, que não gostava de café e hoje é um verdadeiro especialista na beberagem que irá lhe receber e preparar o seu café. Pergunte pelo café especial.


Não é à toa que nossa antiga bandeira dos tempos que o Brasil não era uma mera república, mas um dos maiores impérios do mundo, trazia em seu desenho o ramo de café, um dos principais tesouros desta terra bendita.


café espresso

E é aí que entra a mágica dos métodos de extração. Cada um deles conversa diferente com o grão e com a torra.


Se o café tem torra clara e perfil frutado – como muitos dos nossos mineiros –, o pour-over (V60, Chemex, Kalita) é imbatível. Você derrama a água aos poucos, em círculos, e o gotejar lento realça acidez brilhante e aromas delicados. James Hoffmann, aquele inglês elegante que tem um dos melhores canais sobre café do YouTube, dedica vídeos inteiros a ajustar o fluxo da água para um melhor café. O resultado é uma xícara limpa, quase translúcida, perfeita para sentir a alma do grão.


Quer corpo, textura aveludada? A prensa francesa é a escolha dos românticos. O pó fica imerso alguns minutos, os óleos passam inteiros, e o café ganha peso sedoso. Torras médias para escuras brilham aqui.


Para algo intenso e rápido, nada supera o espresso bem tirado, o meu preferido. Água a 93 °C sob nove bars de pressão em 25-30 segundos. O Havanna que tomei nasceu para isso: torra média-escura, doçura explosiva, crema persistente. É o café que pede uma boa conversa ou um charuto curto depois.


Se você viaja leve, leve uma AeroPress na mochila e uma garrafa térmica com água quente. É pressão manual, portátil, e permite brincar, e em dois minutos sai um café quase espresso ou um filtrado mais encorpado. Campeonatos mundiais são disputados com ela – sinal de que o brinquedinho é coisa séria.


E quando o calor aperta, cold brew: grãos de torra escura em infusão fria por 12 a 24 horas. Menos acidez, doçura redonda, ideal para tomar gelado na beira da estrada.


Se você tem uma moto (especialmente uma clássica) na garagem, faça o teste: saia sem destino, pare num lugar que trate o café com respeito e peça para o barista guiar você.


O Brasil está acordando para o próprio tesouro. Junte-se a isso. E me conte nos comentários: qual método você usa na sua pausa sagrada? Quem sabe não vira o próximo vídeo do meu canal?


José saboreando um espresso no Oblívio

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© 2024 por José Caetano. Criado com Wix.com

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