A moto que fica
Outro dia, um leitor escreveu que estava procurando sua última moto. Não necessariamente a última que compraria, mas aquela que pudesse permanecer com ele por vinte anos ou mais: simples, confiável, capaz de atravessar muitos quilômetros sem exigir a substituição assim que surgisse alguma novidade.
A pergunta ficou comigo.
Não porque eu acredite que a Bonneville T120 Black seja, definitivamente, a última moto que terei. Motociclistas sabem que uma moto pode aparecer na vida quando menos se espera. Mas porque, ao tentar responder à pergunta daquele leitor, percebi que a moto que ele procurava talvez já estivesse na minha garagem.
Isso muda a natureza da pergunta.
Durante muito tempo, como eu escrevi no último artigo que publiquei aqui, escolhi motos procurando alguma coisa que hoje consigo reconhecer com mais clareza. Tive motos menores, uma Harley-Davidson Sportster 883 Low, uma Dyna, uma Street Glide — a Black Betty — e uma Royal Enfield Himalayan, que me proporcionou alguns dos quilômetros mais divertidos que já rodei. Hoje, tenho uma Bonneville T120 Black.

A mesma moto pode significar coisas completamente diferentes em fases distintas da vida. Uma motocicleta grande pode representar liberdade para um homem e necessidade de afirmação para outro. Uma máquina potente pode ser prazer legítimo ou uma tentativa silenciosa de provar que ainda se é capaz de acompanhar alguém — ou de superar alguém.
Com o tempo, porém, certas coisas que pareciam indispensáveis começam a perder força. E outras, aparentemente menores, ganham uma importância que não tinham antes. O barulho da máquina deixa de ser uma declaração. A velocidade deixa de ser uma resposta. A opinião dos outros começa a ocupar menos espaço.
Só depois de algum tempo conseguimos perceber que nossas escolhas não eram tão aleatórias quanto pareciam. Havia nelas uma espécie de autorretrato. Cada moto revelava alguma coisa sobre o momento em que estávamos: aquilo que desejávamos, aquilo que temíamos, o que queríamos conquistar e, às vezes, aquilo que ainda precisávamos provar.
A maturidade não apaga esses homens anteriores. Apenas permite conversar com eles sem continuar obedecendo a todos os seus desejos.
Joseph Ratzinger, meu caro e saudoso Papa Bento XVI, observou diversas vezes que a liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em orientar a própria vida para aquilo que merece ser amado. Essa distinção é importante. O homem livre não é aquele que troca de direção a cada impulso do mercado. É aquele que aprendeu a reconhecer o que, de fato, merece sua permanência.
Há uma diferença entre poder escolher qualquer coisa e saber escolher aquilo que basta. Essa diferença parece pequena, mas não é.
O que significa ter uma moto para a vida toda
O mercado vive de nos lembrar que sempre falta alguma coisa. Uma tecnologia nova, uma versão atualizada, uma cilindrada maior, um equipamento mais completo, uma motocicleta mais recente. A cada ano, a novidade chega com a promessa de corrigir a insuficiência daquilo que possuímos.
Não há nada de errado em comprar uma moto nova. Algumas pessoas gostam da renovação constante, e essa é uma maneira legítima de viver a paixão pelo motociclismo. O problema começa quando a troca deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação psicológica.
Quando a quilometragem aumenta, a moto parece velha. Quando surge um novo lançamento, a que está na garagem parece incompleta. Quando o desejo esfria, imaginamos que a solução será encontrar outro objeto que reacenda a sensação inicial.
Talvez por isso a ideia de uma “última moto” tenha me atingido. Ela contraria essa lógica de substituição permanente. Não promete novidade. Promete convivência.
O homem que conserta antes de trocar não está necessariamente preso ao passado. Ele pode estar fazendo uma escolha muito mais difícil: decidir o que merece durar. Essa escolha exige manutenção. Nada que permanece está livre de desgaste. Uma motocicleta precisa de revisão, cuidado, peças substituídas e atenção. Um casamento com mais de 20 anos também. Uma amizade da vida toda também. Um nome construído ao longo de décadas também.
A permanência não é ausência de problemas. É a decisão de não interpretar cada problema como prova de que tudo deve ser abandonado.
Hans Urs von Balthasar escreveu sobre a importância da forma — aquilo que dá unidade e sentido à existência. Uma vida não se torna consistente pela acumulação de experiências isoladas, mas pela maneira como elas se ordenam em torno de algo que merece ser preservado.
A moto pode participar desse processo. Não como solução para os problemas da vida, nem como objeto sagrado, mas como uma presença concreta dentro de uma existência que precisa de ritmos, responsabilidades e escolhas.
Há coisas que nos ajudam a lembrar quem somos.
A moto que fica
Ainda não sei se a Bonneville será minha última moto. Talvez amanhã surja outra. As motos continuam aparecendo. Uma conversa, uma viagem, uma fotografia ou um encontro podem abrir uma nova possibilidade.
Mas existe uma diferença entre trocar porque se cansou e permanecer porque já não se sente falta de nada. A primeira decisão nasce do impulso. A segunda, de uma espécie de reconhecimento.
O recém beatificado Fulton Sheen dizia que a felicidade não está em possuir tudo, mas em desejar corretamente. Talvez a maturidade motociclística tenha alguma relação com isso. Não se trata de abandonar o desejo, nem de fingir que não existe mais curiosidade. Trata-se de descobrir quais desejos ainda conduzem a algum lugar e quais apenas nos mantêm correndo atrás de uma próxima versão de nós mesmos.
Uma moto pode ser grande, rápida e sofisticada. Pode ser uma escolha excelente. Mas, depois de certa idade, talvez a pergunta mais importante não seja o que ela oferece, e sim o que ela exige de nós.
A moto que tenho hoje não me pede pressa. Não me obriga a justificar sua presença. Não precisa parecer mais importante do que é. Ela apenas está ali, pronta para a estrada.
E talvez seja isso que eu procure agora: não uma máquina que me ajude a parecer alguém, mas uma companheira que me permita estar inteiro durante algumas horas.
A última moto não será necessariamente a mais potente, a mais cara ou a mais nova. Pode ser apenas aquela que encontrou o homem certo no momento certo. Aquela que, depois de tantas trocas, finalmente nos faz parar de procurar.
Se você já sabe qual seria a sua última moto, conte essa história nas Cartas da Garagem. A newsletter é o lugar onde essas conversas podem continuar sem a pressa das redes sociais — e talvez a sua história seja o começo de uma próxima conversa.




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